30 de out de 2011

RUI BARBOSA - Ainda é Atual



                                         SENZALAS MORAIS


        Regímens há, que são verdadeiras senzalas morais, onde as almas corruptas de servir se nutrem da corrupção, no ar corrompido que as envolve. No ambiente livre não há exalações, que perdurem. A luz, o vento, o oxigênio tudo levam, ou limpam, tudo regeneram, ou depuram.

        Mas debaixo das telhas, onde vegeta e mirra a servidão, não há miasma, que não pegue, não vingue, não se eternize. Cada um dos que vão chegando, se aduba dos outros; com eles se cruza e recruza; novas espécies lhes surgem do coito sutil; de hibridação em hibridação, de multiplicação em multiplicação, um mundo incalculável de malignidades se enxameia, coalha o ar, o desoxigena, e acaba por o tornar irrespirável.

       Aí não surdirá mal que se elimine: todos se perpetuam; com os antigos colaboram os recentes; do ajuntamento de uns e outros se vem gerando novos; pelo concurso destes com aqueles, crescem ao infinito em número em diversidade, em virulencia os contágios, as infecções, as pestes.



           (Senzalas Morais integra o livro Rui Barbosa e o Exército, Casa de Rui Barbosa, 1949, págs. 31-32.)